Eu quero, mas nem tudo eu posso ou consigo: somos marcados pela falta

Antes, por causa das obrigações do dia a dia podíamos manter um certo afastamento dos nossos incômodos para não entrar em contato com as nossas vulnerabilidades e deixar para depois aquilo que nos afeta; agora trancados em casa e sem ter para onde fugir, temos que encarar nossas angústias. O “depois” chegou e estamos diante de uma situação que não deve ser negada: há um vírus altamente contagioso e perigoso lá fora.

O psicanalista Christian Dunker considera que uma das maneiras que encontramos para uma recomposição psíquica, que é uma forma de voltarmos a uma estabilização em uma situação de crise – como a que nos encontramos – é buscar como exemplo as pessoas que admiramos, respeitamos, que são aquelas que ocupam um lugar que ele chama de referência simbólica para nós. Mas de que maneira isso pode ser perigoso diante da situação atual?

As pessoas que ocupam o lugar de referência simbólica podem ser da nossa família, grandes líderes e até algum influenciador da internet. Isso se torna perigoso porque nem tudo que essas referências defendem ou discursam condiz com a realidade. Há um movimento que vem crescendo nas redes sociais que defende que alguns sentimentos devem ser evitados e que só a felicidade, alegria e outros sentimentos “positivos” devem ser sentidos; mas isso vai em um caminho contrário de um conceito fundamental que Lacan traz em sua teoria: a falta. Somos todos seres faltosos, há sempre algo que não temos, isso significa que não podemos tudo que queremos e a vida não é sempre tão agradável assim. Às vezes está tudo bem no trabalho, mas as coisas não vão tão bem assim no relacionamento; outras temos uma pessoa ótima ao nosso lado e um emprego incrível, mas não nos sentimos tão satisfeitos assim; e assim adiante. E é importante que algo nos falte! Afinal, é o que nos mantém como sujeitos desejantes da vida.

Diante de uma crise mundial é compreensível que se sinta medo, que um estado de ansiedade seja mais recorrente, que se perceba estressado com mais frequência, é um momento de lidar com o medo do que está lá fora (o vírus que nos aponta a finitude da vida) e com a vulnerabilidades, angústias que estão do lado de dentro. É preciso um cuidado de si, que se observe e acolha os sentimentos que se manifestam. É perigoso viver em um estado de negação, seja da existência do vírus ou dos sentimentos que nos acometem por causa dele.
Não há uma receita de bolo para lidar com a pandemia, ela afeta de maneiras diferentes cada sujeito, estamos todos descobrindo qual a melhor maneira, para cada um, de atravessar esse momento. Por isso, desconfie dos “passo a passo para lidar com a pandemia” ou dos tutoriais para uma vida feliz no distanciamento social. Lembre-se sempre: distanciamento social não implica em um isolamento, há diversas maneiras de manter e estreitar os vínculos com as pessoas queridas, através de ligações, vídeo chamadas, reuniões familiares e com amigos por aplicativo, entre outros… Se manter em contato com as pessoas e filtrar os meios de informações é uma maneira de cuidar de si e reduzir o estado de ansiedade. É fundamental se atentar para seus limites, e reconhecer que tem dias que não está tudo bem, e é preciso sentir esse mal estar também.

Procure ajuda profissional caso não esteja sendo possível lidar com tudo isso sozinho!

Por Patricia Dias
Psicóloga
CRP: 05/60675
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Essa é a coluna da psicóloga Patricia Dias aqui no Macaé Tips. E vai sempre trazer textos e esclarecimentos sobre assuntos atuais que atravessam a nossa vida e dia a dia.

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